Poemas Urbanos

Thursday, November 30, 2006

Um traço

Um traço
Nada mais

Qualquer gesto
Qualquer moldura
Desmantela tudo
o que este verso traz

Isso aqui é muito simples

Isso aqui não vai entrar em cartaz

É apenas um traço
Nada mais

Monday, October 23, 2006

Tudo pelos ares

Somos anjos perdidos.
Asas mortas no chão
desde a primeira audição
da palavra impossível.

Fabio Rocha

Monday, September 25, 2006

Perdido

Na hora exata da procura
Ninguém desperta
Nenhuma alma aberta
Para a festa ou para a fúria


O tempo do outro
Cobre-se de um respeito tolo
de um embobocentrismo
Que só a pessoa certa
Aquela
Que de alguma forma concreta
Comeu o líquido sentido


Na hora exata da falta alguém demora

Alguém
Lá fora
Perdido

Wednesday, August 16, 2006

A Lenda da Latinha Geladinha

Em todo lugar
aonde você pergunta
A latinha tá geladinha?
respondem:
Tá!

Quase sempre é mentira

Felizes, os normais

felizes os normais
esses seres estranhos.
Que nunca tiveram uma mãe louca, um pai bêbado, um filho delinquente
uma casa em lugar nenhum, uma doença desconhecida
Felizes os que não foram tomados por um amor alucinante
Os que viveram os dezessete rostos da felicidade ou talvez um pouco mais

felizes os que vivem cheios de sapatos, os arcanjos de chapéus
os satisfeitos, os gordos, os lindos
os rintintins e seus donos
os que sempre ganham, os que são queridos mesmo armados

felizes os flautistas acompanhados por seus ratos
os vendedores e seus compradores
os cavalheiros ligeiramente sobrehumanos
os homens vestidos de trovão e as mulheres de relâmpago

felizes os delicados, os sensatos, os finos, os amáveis, os doces, os comíveis e os bebíveis
felizes as aves, o esterco, as pedras.

mas que estes dêem passagem aos que fazem os mundos e os sonhos
as ilusões, as sinfonias, as palavras que importam
e aos que destroem e constroem, os mais loucos que suas próprias mães, mais bêbados que seus pais e ainda mais delinquentes que seus filhos
E aos restos dos devorados pelos amores lancinantes

Que tenham lugar garantido no inferno.
E basta!
Retamar

A Negação da Morte

Os homens são tão necessariamente loucos que, não ser louco, seria uma outra forma de loucura.
Necessariamente porque o dualismo existencial torna sua situação impossível, um dilema torturante
loucos porque tudo que o homem faz em seu mundo simbólico é tentar negar e superar sua sorte grotesca
literalmente entrega-se a um esquecimento cego através de jogos sociais, truques psicológicos, preocupações tão distantes da realidade de sua condição que são formas de loucura
loucura assumida
loucura compartilhada
loucura disfarçada e dignificada
mas de qualquer maneira loucura.
Ernest Becker em A Negação da Morte

Thursday, August 10, 2006

Samba do Oriente

Que bonita foto no jornal
um soldado moço, um casaco grosso
pele e osso de chinês

que bem recentemente decretou
uma lei marcial
que não é legal
mas esta foto fez
revelar de vez
e em beleza oriental

a dor do amor da minha flor
é mal

Friday, July 21, 2006

Sete

A vida é um cemitério de desejos
Sete alemanhas circundam toda a vida do vôo
Sete desejos
Sete buracos na cabeça

A vida é um cemitério de desejos
Sete vezes perdi o trem
Sete coisas me atormentam
Sete contas na gaveta

A vida é um cemitério de desejos
Sete carros no passeio
Sete pratos diferentes
Sete ratos na represa
Sete dentes

A vida é um cemitério de desejos
Sete boys no trottoir
Sete feridas no corpo
Sete loucos na cantina
Sete sinas

Wednesday, July 12, 2006

Computador

Ele está com sede
de carne
Com vontade de água morna e fome

Ele está carente de documentários
Está com o olho anti-horário da revolução
E
de repente
Some pra dentro do quarto

Ele está com a mão na botija
A boca afastada de amendoins
Enquanto dentes desenham suas falas

Ele está bem
Sem retoques na alma
Sem pressa e sem ganas de ir embora

Ele está lá
E só

Adeus nº 2

Em paralelepípedos
Formais
Temo outros pesadelos
Não digo dos atropelos em vão
Não falo de vacilos ligeiros
Aponto coisa doída
Ferida aberta
Sem perspectiva de cicatriz
Aponto a morte
como saída
Aponto a despedida
Adeus!